sábado, 19 de fevereiro de 2011

O que aconteceu com os manifestantes de Florianópolis? | Polo oeste

Publicado em 18 18UTC fevereiro 18UTC 2011 por Rafael de M. Knabben


É fundamental não esquecer do mais simples: as manifestações de 2004 e 2005 contra os reajustes das tarifas de ônibus só deram certo porque as pessoas ocuparam as ruas até conseguirem o que queriam.

A resistência está além da força.
Não é raro alguém se perguntar o que aconteceu com as manifestações contra os aumentos das tarifas de ônibus em Florianópolis. Depois de dois sucessos seguidos em 2004 e 2005, elas parecem ter perdido a sua eficácia, reduzidas a passeatas pelo centro da cidade, sem efeito, reverberação e, principalmente, sem conseguir o que querem.
As respostas para essa pergunta são muitas. Fala-se que desde 2005 não se instilou mais o medo nas elites locais com confrontos com a polícia e quebraceira pelas ruas. Ou então comenta-se que a polícia mudou de estratégia para desmobilizar os atos: da repressão brutal e ineficiente, ela passou a uma campanha de intimidação baseada em prisões arbitrárias, tasers e num número de policiais grande o bastante para esporadicamente circundar e deixar os manifestante sem saída. E por aí vão as respostas.
Diante desses fatos e das maneiras com que se tem encarado as coisas, gostaria de mudar levemente o foco da questão. De “O que aconteceu com as manifestações?” para “O que aconteceu conosco, os manifestantes?”.
Para quem acompanha os protestos desde 2004, parece óbvio que muita coisa mudou entre a gente. Seja ao nível do perfil dos participantes, da maneira de nos organizarmos e da relação com a polícia. Mas existe uma transformação que me inquieta desde 2007, quando as memórias do último sucesso, dois anos antes, ainda estavam frescas. Nós, os manifestantes, perdemos duas coisas essenciais: o espírito de resistência e a vontade de criarmos canais com outros setores da sociedade e da cidade.
Infelizmente, as lembranças que guardamos de 2005 são principalmente reservadas aos confrontos com a polícia, ao ponto de vermos neles parte considerável da razão do nosso sucesso. Não que as agressões policiais devam ser ignoradas, mas acabamos esquecendo do que aconteceu de mais marcante naqueles protestos: a capacidade com que os seus participantes tinham de resistir nas ruas diariamente, chegando a ocupá-las por quase um mês ainda aos milhares. Foi essa mobilização constante e perseverante, mais que qualquer outras coisa, que derrubou o aumento.
Depois disso, já em 2007, foi uma triste surpresa perceber que as manifestações de então não passaram de uma semana. Uma semana relativamente intensa, é verdade, mas sem conseguir ser consistente o bastante para ir além.
O mesmo aconteceu em 2009 e 2010, dependendo cada vez mais dos “grandes atos” das quintas-feiras, enquanto nos outros dias uma ou duas centenas de manifestantes ousavam se reunir por si só em frente ao TICEN para fazer alguma coisa. Era mera questão de tempo para que as manifestações perdessem ímpeto e se desmobilizassem.
Precisamos lembrar que a pior mensagem que algum governante diante de um protesto pode receber não é um molotov ou a palavra de um membro de um partido de oposição, mas a promessa de que as pessoas irão continuar nas ruas mobilizadas e articuladas. Apesar de os atos de 2004 terem durado pouco menos de duas semanas, esse foi o tempo o bastante para que alguns manifestantes levantar um acampamento em frente ao TICEN e dizer que sairiam de lá só com a redução das tarifas. Em 2005, a mensagem de que iríamos resistir chegou a virar título de um documentário sobre a sua primeira semana, “Amanhã vai ser maior!”. Esses, mais a presença diária de manifestantes pela cidade, são apenas exemplos dos piores recados recebidos pelos poderes de Florianópolis então.
Estamos em 2011 e mais um aumento das tarifas de ônibus está programado na capital catarinense, e já se sente a excitação por novas manifestações. Mas, se vamos entrar nessa para ganhar (e só vale a pena quando é para isso), precisamos recuperar o brio e o ímpeto deixados em algum canto da história que estamos ainda fazendo. É embrigado neles que se resiste com vontade e eficácia.
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