sábado, 30 de abril de 2011

Petistas defendem decisão de reintegrar Delúbio Soares

Folha de São Paulo 29/04/2011-21h28



GABRIELA GUERREIRO
CATIA SEABRA
DE BRASÍLIA

Integrantes do diretório nacional do PT saíram em defesa nesta sexta-feira da decisão da sigla de reincorporar o ex-tesoureiro Delubio Soares aos seus quadros.

O recém-eleito presidente do PT, Rui Falcão, disse que o partido não tem como prática aplicar "expulsão perpétua" aos seus integrantes --mesmo depois de ter afastado Delubio em 2005.

Diretório do PT aprova refiliação do ex-tesoureiro Delúbio Soares

"Não existe expulsão perpétua. A decisão representa a convicção da maioria de que ele já pagou pelos seus atos", afirmou.

Falcão disse que a volta de Delubio não "arranha" a imagem do PT junto à opinião pública, uma vez que a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva têm ampla popularidade no país, assim como a própria sigla.

"É um partido que tem programa, prática política. Isso é que precisa do apoio da opinião pública. A volta do companheiro é um processo natural de filiação. Ele teve um comportamento adequado ao que pensa o partido", afirmou Falcão.

Líder do governo na Câmara, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) afirmou que a sigla tem a "tradição" de não defender "pena perpétua" para nenhum de seus filiados.

"Ele foi punido, pagou pelo que fez. Temos um projeto político mais amplo que um erro que o Delubio cometeu."

AUSÊNCIA

Delubio não participou da reunião do diretório nacional que decidiu pelo seu retorno. O petista foi representado pela sua mulher, Mônica Valente, uma das integrantes do diretório.

O petista precisava de pelo menos 50% dos votos dos seus integrantes para retornar, mas teve o apoio de 60 dos 77 presentes --o que representa 77,9% dos integrantes do diretório.

De novo?



Já se passaram dois anos de quando o Diretório Nacional do PT decidiu não debater a proposta de nova filiação do ex-tesoureiro Delúbio Soares. Aproxima-se uma nova reunião do Diretório Nacional, dias 29 e 30 de abril, e a imprensa noticia que será colocada em pauta a refiliação de Delúbio.

No dia 25 de outubro de 2005, o Diretório Nacional do PT analisou relatório da Comissão de Ética e expulsou Delúbio Soares, cancelando a sua filiação partidária. Foram 2/3 dos votantes a favor desta proposta e 1/3 a favor da suspensão temporária.

Recolocar o tema para a mesma instância é solicitar ao Diretório Nacional uma auto-crítica e uma condenação da decisão tomada anteriormente. Mais do que isso, é reabrir uma questão que, a seu tempo, teve a solução que mais nos unificou. Reabrir é mudar o curso do PT desde aquele momento: no 13º Encontro e no 3º Congresso o partido voltou a encontrar um caminho de unidade com posições críticas aos acontecimentos de 2005 e com posições de superação daqueles equívocos. Reabrir essa questão é interromper o caminho de unidade que viemos construindo desde então.

É compreensível que vários dirigentes do PT queiram Delúbio Soares novamente entre os quadros partidários, movidos por laços de solidariedade e pelo reconhecimento de sua militância no movimento sindical e no PT.

É necessário lembrar que, à época, a maioria dos membros da Executiva Nacional e do Diretório Nacional se recusou a aprovar um processo interno para se constituir um juízo comum sobre o que foram os acontecimentos que produziram a crise de 2005.

Este foi um erro que cobra seus efeitos até hoje. A direção do PT não tem uma opinião comum sobre a crise. Existem várias versões, um largo espectro de opiniões, mas não uma compreensão comum. Este fato enfraquece a defesa do partido como projeto coletivo.

No entanto sobre a atuação de Delúbio Soares como Secretário Nacional de Finanças existiu uma posição e está documentada no processo interno. Os termos ali utilizados são duros. Invalidar a decisão anterior do Diretório Nacional é, necessariamente, recolocar todo o debate de volta.

Outro aspecto de muita importância é que existem muitos processos constituídos por diferentes poderes públicos sobre os dramáticos acontecimentos da crise de 2005 e os seus atores. Muitos aguardam julgamento do Supremo Tribunal Federal. Frente a eles o PT deve ter uma posição de defesa partidária. E aí vai contar a capacidade de unir o partido. A proposta de refiliar Delúbio em nada contribui para isso.

Os dirigentes do PT que querem o retorno do Delúbio precisam analisar esta proposta sob a ótica da razão. Os legítimos ingredientes emotivos, dos laços de amizade e companheirismo, devem mais uma vez, submeter-se à lógica da construção do partido e da sua relação com suas bases e com a sociedade. A questão não é pessoal. A questão é a unidade do partido.

A pauta do DN deve ser a pauta do partido que tem um papel dirigente na transformação do Brasil. As tarefas decorrentes da conquista do nossa terceira Presidência da República e dos nossos compromissos com o povo brasileiro devem ser os guias da nossa prática.

Carlos Henrique Árabe, Secretário Nacional de Formação Política do PT

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Vinte anos de vitalidade




Artigo do deputado federal Dr. Rosinha, publicado pela Agência Carta Maior. "Além da união aduaneira, ainda que imperfeita e incompleta, e da política de representação conjunta frente a terceiros Estados, mesmo que eventualmente pouco coordenada, hoje o Mercosul já tem em funcionamento instituições típicas de um mercado comum".
Dr. Rosinha *
O escritor norte-americano Mark Twain teve a ingrata tarefa de desmentir notícias acerca de sua própria morte. Twain estava em Londres quando surgiram os boatos sobre o seu falecimento. Convocou a imprensa e, com sua habitual ironia, afirmou: “Os rumores sobre a minha morte foram grosseiramente exagerados”.
Com o Mercosul se passa algo semelhante. Desde o nascimento, vaticinam seu falecimento iminente.
Desde a época da assinatura do Tratado de Assunção, que em 1991 criou o Mercosul, não faltaram ironias. Alguns afirmavam que se tratava de uma união “dos rotos com os esfarrapados”. E faziam críticas ácidas em relação à suposta inviabilidade de um bloco fadado a ser absorvido em processos de integração mais amplos com países desenvolvidos.
Ao longo dos anos, também não faltaram aqueles que defenderam reiteradamente que o Mercosul renunciasse a sua união aduaneira e se transformasse numa mera área de livre comércio.
Tais vozes sempre apregoaram como fútil e irrelevante a integração regional e, com frequência, tentavam demonstrar que o Mercosul estava moribundo. Consideravam o Mercosul um arcaísmo “terceiro-mundista”, e sonhavam com a miragem neoliberal da Alca (Área de Livre Comércio das Américas).
Apesar de suas fragilidades e problemas, o Mercosul está hoje, duas décadas depois, mais vivo do que nunca.
Os boatos sobre a sua irrelevância e seu suposto "peso" para os países-membros não só são grosseiramente exagerados, mas também inteiramente falsos. São fruto da desinformação e de posição ideológica.
Nos últimos tempos, aumentou o tom do discurso dos “mercocéticos”, que apregoam a volta da desagregação regional e a necessidade do Brasil investir apenas no livre comércio com as nações mais desenvolvidas. Pregam a “flexibilização” do Mercosul. Nas eleições de 2010, o então candidato José Serra classificou o bloco como “uma farsa”.
Inspirado na experiência da União Europeia, o Mercosul foi concebido, desde o início, para ser um verdadeiro mercado comum, o que implica, necessariamente, a constituição da união aduaneira, mediante a Tarifa Externa Comum (TEC).
Por isso mesmo, o Tratado de Assunção --cuja leitura recomendo aos mercocéticos demotucanos, alguns diplomatas aposentados, jornalistas, etc.-- estabelece, logo no seu artigo 1º, que a adoção de uma tarifa externa comum e de uma política comercial comum em relação a terceiros Estados são dimensões essenciais e constitutivas do processo de integração.
Sobre tal base, estão assentados outros vetores importantes desse processo: a livre circulação de pessoas, a harmonização das legislações, a constituição de instituições supranacionais e, sobretudo, a formação de uma cidadania comum. Este último vetor tem ganho uma ênfase nos últimos seis anos.
Além da união aduaneira, ainda que imperfeita e incompleta, e da política de representação conjunta frente a terceiros Estados, mesmo que eventualmente pouco coordenada, hoje o Mercosul já tem em funcionamento instituições típicas de um mercado comum, como o Focem (Fundo para a Convergência Estrutural e Fortalecimento Institucional do Mercosul). Destinado a corrigir assimetrias, o Focem financia projetos de desenvolvimento nas regiões pobres.
Já o Parlamento do Mercosul tem, como uma de suas atribuições, a de ajudar na correção do déficit democrático.
Evidentemente, os mercocéticos têm todo o direito de defender a ideia de que o Mercosul tem de ser flexibilizado e deva ser apenas uma área de livre comércio. Mas é preciso que fique claro que, nesse caso, o Mercosul deixaria de ser Mercosul. Seria uma espécie de Área de Livre Comércio do Sul, que poderíamos, para ficar na moda imposta pelos Estados Unidos, chamá-la de Alcasul.
Para tanto, o Tratado de Assunção teria de ser renegociado e todas as instituições, acordos, protocolos e processos construídos até agora teriam de ser revistos. Áreas de livre comércio, além de ter de prescindir da TEC e das negociações conjuntas, também têm de renunciar às instituições supranacionais e à livre circulação de pessoas. Seria uma “flexibilização” sem volta.
O Parlamento do Mercosul, concebido à semelhança do Parlamento Europeu e destinado a representar e construir uma cidadania comum, perderia inteiramente a sua razão de ser.
É preciso que todos os parlamentares tenham clareza quanto a esta questão. A Alcasul prescindiria de um verdadeiro parlamento. Afinal, as áreas de livre comércio –como a do Nafta–, não constroem cidadania, constroem muros.
Assim como Mark Twain, o Mercosul continua reiteradamente desmentindo os rumores grosseiramente exagerados de sua morte. E, para o desespero de alguns, demonstra vitalidade.

* Médico pediatra, deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul (http://www.twitter.com/DrRosinha). Artigo extraído do portal Carta Maior.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Contraposições, iniciativas e quebra da reprodução de conceitos racistas



Existe uma prática cotidiana de taxar o negro de racista às avessas, quando reproduz algum tipo de preconceito a outro segmento racial. Acreditamos que para este debate é fundamental entender dois conceitos. Primeiro, o conceito de racismo. Alguns intelectuais erram quando restringem o racismo ao ódio entre as raças. O segundo ponto é a concepção de preconceito.
Herlom Miguel e Diego Lustosa*
"A arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido"
(Steve Biko)
O racismo é o preconceito contra um grupo racial distinto, fazendo com que o grupo opressor construa mecanismos de distanciamento e de controle sobre outro grupo racial. O racismo cria mitos, padrões, formatos, critérios, etc. Esses elementos juntos conformam-se em valores morais e estéticos, formalizando o que é certo e o que não é, o que é bonito e o que é feio, o que deve ser aceito e o que deve ser repudiado. Não é necessário entrar no debate já superado sobre o conceito de raça biológica. Todos sabemos que, do ponto de vista biológico, as raças não existem. Reivindicamos a raça negra sob critério político, de um segmento étnico no Brasil, em sua maioria afrodescendentes que sofreram e sofrem preconceito e discriminação.
O racismo constrói leis, regras e mecanismos para manter o poder político e econômico, em detrimento da raça oprimida. Conforme Lênin, “o Estado é a organização especial de um poder: é a organização da violência”. A Universidade, na qual entram os filhos das elites, que são os das melhores escolas particulares, que por uma naturalização perversa são os filhos dos não-negros. A televisão, que prefere “gente bonita” que obedece a um padrão de beleza europeu, que é necessário para aparecer na mídia; logo, o padrão negado – o negro, no caso do Brasil -, não estará na televisão. Obviamente existem exceções, existe um ou outro negro que se adapta ou adéqua ao padrões para adquirir aceitação. Enfim, o racismo é um mecanismo perverso de manutenção de hegemonia, para exercê-lo é fundamental conseguir preponderância, coisa que hoje a população negra não possui. Não existem leis, regras, universidades, política, normas que fortaleçam uma dominação negra contra um segmento dominado.
O preconceito, por sua vez, é um juízo preestabelecido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, lugares ou culturas consideradas diferentes. O ser humano tenta de forma equivocada estabelecer conceitos sobre coisas das quais desconhece, ou conhece superficialmente. Reproduzir o preconceito é um equívoco irrefletido.
As opressões sempre são geradas a partir de um movimento em cadeia, responsável por sua perpetuação. Três atores são fundamentais na constituição da opressão racial: o ser hegemônico, que organiza a opressão; o emissor da opressão; e o receptor oprimido. Dois dos maiores emissores do racismo, Demétrio Magnoli e o deputado federal Jair Bolsonaro, repetem que todos os avanços das políticas afirmativas criam uma sociedade divida em raças. É bastante cômico, pois não fomos nós quem criamos a sociedade racializada, ela foi construída com tijolos sólidos pelos não-negros. Existindo esta sociedade racializada, utilizamos o conceito político de raça para exigir reparação. No final, percebemos que não debater a divisão racial da economia é manter as estruturas como estão, o que não é nada ruim para a elite hegemônica, que no Brasil é formada por não-negros.
Nesse sentido, a ministra Matilde Ribeiro ousou ao afirmar que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco”. E disse ainda: “A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”. Entendemos que a declaração da ministra aponta na direção de desconstruir a ideia de um racismo às avessas, uma vez que a prática racista apóia-se em um tripé político-econômico-étnico, inacessível ao trabalhador negro. O racismo é uma prática eminentemente política, interessante a uma elite branca que oprime política e economicamente. É importante ressaltar essas dimensões política e econômica do ato racista, pois existem os milhões de brancos brasileiros descendentes de imigrantes europeus pobres que vieram trabalhar na lavoura do café no fim do século XIX, após a abolição da escravatura, e que mais tarde, no veloz processo de urbanização e industrialização do país no século XX, com o declínio da economia cafeeira, migraram para as grandes cidades e transformaram-se nos operários oprimidos pela mesma hegemonia racista, que de tão abrangente afeta também o branco pobre. Portanto, é preciso revelar a luta de classes, em que há uma elite branca opressora e uma imensa massa oprimida, em grande maioria negra, mas que também incorpora os não-negros que historicamente sofreram o êxodo rural e os descendentes dos povos indígenas, que tiveram suas terras violentamente roubadas. O brasileiro trabalhador que discrimina seu companheiro negro reproduz irracionalmente o discurso do ser hegemônico, que organiza, legitima e dissemina a opressão racial e a falsa inferioridade do povo negro.
Ainda abordando o “racismo às avessas”, podemos citar o caso do bloco afro ilê aiyê, que sofreu muitas acusações de promover essa atitude. O bloco surgiu em 1974, e desde aqueles dias até hoje tem provocado muita polêmica. Quando surgiu, o jornal “A Tarde” publicou: "Bloco Racista, Nota Destoante", declarando que “não temos, felizmente, problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro”. Naquela época, os blocos de Salvador faziam um criterioso pente-fino com foto, endereço e faixa salarial para acessar ou não um bloco de carnaval pago. De lá para cá algumas coisas mudaram. O Bloco ganhou notoriedade, organizou movimentos, afirmou um povo e propõe a igualdade, a seu modo, empurrando o dedo na ferida. Mesmo com fama e prestígio, o Ilê Aiyê representa as cotas no Carnaval, na festa onde os trabalhadores negros trabalham para os brancos beijarem-se e divertirem-se. Para acessar o Ilê o critério não é meramente econômico, até porque se fosse assim excluiria a população negra. O critério para acessar o ilê aiyê é racial, é político, utiliza um mecanismo de combate ao racismo que se chama “discriminação positiva”: discriminar para dar entrada aos excluídos. O seu principal objetivo é fazer luta. Com certeza, um dia o Ilê se abrirá, mas quando houver igualdade.
 O sentido de políticas afirmativas, como a do Ilê, é corrigir as desigualdades historicamente construídas, não criar um novo apartheid. O povo negro não deseja incitar o ódio ou a segregação, como afirmam os servos midiáticos da elite, mas protagonizar o processo de libertação dos trabalhadores oprimidos. “A grande tarefa humanística e histórica dos oprimidos é libertar-se a si e aos opressores,” como anunciou Paulo Freire. Isso só se torna possível quando os oprimidos lutam para libertar-se da situação de opressão em que vivem e modificar as estruturas do sistema opressor, que permite a violência do dominador, para que ninguém mais seja oprimido. Até porque, caso contrário, a luta não teria sentido, pois seria apenas uma troca de elites.
 O problema da ação do capital no Brasil se dá principalmente em detrimento da população negra. Para Marx, “a história da sociedade até os nossos dias é a história da luta de classes”. A luta de classes no Brasil está intrinsecamente ligada à luta anti-racista. É necessário organizar uma contra-ofensiva, não orientada pelo ódio – inútil à revolução - , mas norteada pela consciência da  luta de classes e pela revolta contra esse modo indigno, desumano e injusto de organização social, promovido pela elite branca contra o trabalhador, especialmente o trabalhador negro. Não perdemos de vista que “o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor”, como afirmou Che.
 A tarefa é árdua, mas a vitória virá! Evidentemente, nós, negros e negras organizados, devemos dialogar nossas pautas cotidianamente com os setores que fazem a luta. Existem muitos aliados não-negros, por isso militantes da esquerda, movimentos sociais, dos direitos sexuais e das mulheres devem permanecer unidos.
Tendo em vista os aspectos observados, percebemos que os negros muitas vezes até reproduzem o preconceito que eles sofrem, mas isso não pode ser chamado de racismo. Mesmo assim, qualquer tipo de preconceito é nocivo, perverso e deve ser extirpado das relações humanas. O preconceito racial deve ser denunciado e excluído de toda forma de ação do Estado ou política pública. Para tal, nos organizemos duramente contra esse mal! Recordando o grande Luther King, “devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita.”

* Herlom Miguel é Militante do Coletivo Nacional Enegrecer; e Diego Lustosa é integrante do Centro Acadêmico de História da Universidade Católica de Salvador.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Comissão do PT discute Reforma Política com Lula na segunda, 18



Uma comissão de dirigentes e parlamentares petistas se reúne na próxima segunda-feira (18) com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para debater os temas da Reforma Política.
Fonte: Site do PT
A reunião foi solicitada pelo PT e tem por objetivo pedir o apoio de Lula às propostas defendidas pelo partido, entre elas o financiamento público de campanha, o voto em lista fechada e o fim das coligações para as eleições proporcionais.
Participam do encontro, que acontece a partir das 15h na sede do Instituto da Cidadania, em São Paulo, o presidente interino do PT, Rui Falcão, o secretário-geral Elói Pietá, o presidente da Fundação Perseu Abramo, Nilmário Miranda, o líder do partido na Câmara, Paulo Teixeira, e o líder no Senado, Humberto Costa, além de deputados e senadores diretamente ligados ao assunto nas comissões do Congresso Nacional.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Havana está renascendo

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 Dando sequência às discussões em semana de Congresso do Partido Comunista Cubano, reproduzimos aqui artigo do escritor e jornalista Leonardo Padura sobre as mudanças que podem ser observadas em Havana, com expectativa acerca do que virá. 
Leonardo Padura*
Apenas oficializada as primeiras medidas da “atualização do modelo econômico cubano”, que ganhará sua forma e projeções definitivas nas sessões do congresso do Partido Comunista, este mês, os efeitos da nova política começaram a mudar, de maneira acelerada, a aparência de uma cidade que, nos últimos 50 anos, parece ter parado no tempo (e inclusive retrocedido com o avanço da deterioração).
Até este instante, a abertura mais contundente e visível é a da revitalização do trabalho por contra própria, com ampliação de suas categorias e atividades (nada espetacular, pois está centrada nos ofícios e em pequeníssimos negócios, mais do que nas profissões). Para exercer as diferentes possibilidades de trabalho privado já foi concedido no país um número notável de novas licenças, apesar de, em seu próprio nascimento, se estabelecer um forte sistema tributário que faz duvidar da capacidade de muitos interessados de poderem cumprir cabalmente os compromissos fiscais.
Esta alternativa de trabalho independente, por muitos anos proibida e depois estigmatizada, cumpre diversas missões, entre elas absorver parte dos empregados estatais e governamentais que ficarão “disponíveis”, segundo a retórica cubana. O número das demissões é calculado em mais de um milhão quando o processo estiver concluído, embora sua execução já tenha sido desacelerada diante da evidência de que a sociedade e a economia não têm muitas alternativas profissionais para tantas pessoas. Por sua vez, o trabalho por conta própria tenta dar um leve, mas necessário, impulso de baixo para cima à descentralização das estruturas econômicas de um modelo no qual, até hoje, a presença do Estado é como o da essência divina: brilha em todas as partes, embora nem sempre visível ou tangível. No mercado de trabalho, naturalmente, a presença estatal e governamental era absoluta e hegemônica, embora desde a crise dos anos 1990 tenha sofrido muitas deserções, considerando que os salários oficiais são insuficientes para os níveis de gastos do empregado médio e muitas pessoas em idade produtiva preferiram passar à atividade do “invento”, termo cubano que engloba as mais diferentes estratégias de sobrevivência.
Entre os “novos negócios” aos quais se voltaram os cubanos sob as condições legais recentemente aprovadas, dois setores são mais procurados: a gastronomia e a venda de produtos agrícolas em todos os pontos da cidade. A avalanche de cafeterias, pequenos restaurantes e vendedores de rua e ambulantes (que necessitam de mínimo ou nenhum investimento) introduziram um ambiente de criatividade e mobilidade, que, no aspecto físico, vai criando no entorno urbano uma imagem de feira dos milagres, na qual cada um vende o que pode e como pode: as centenas de cafeterias (e pode-se perguntar se haverá clientes para todas elas, em um país onde a maioria dos salários, como já disse, apenas garante a subsistência?) brotadas em cada esquina, em portais, ou locais rústicos, quase sempre surgem sem a menor sofisticação e com as características de que os alimentos adquiridos são consumidos de pé, na calçada, passando uma imagem de improvisação e pobreza que são dolorosas.
Enquanto isso, os vendedores de hortaliças e algumas outras produções agrícolas optam por locais ainda menos apresentáveis e pior montados, e, inclusive, pela venda nas calçadas do produto nas mesmas caixas de madeira em que foi transportado ou armazenado. Sem um toque de sofisticação, com a convicção de que a demanda supera em muito a oferta e sem intenções de atrair pela qualidade, apresentação ou pelo preço, estes pontos de venda, mais que uma imagem de pobreza e improvisação, estão trazendo à cidade ares rurais e retrógrados dos quais Havana havia se afastado há muitas décadas.
Junto a esses dois itens dados à luz, oficialmente aceito, o negócio da venda de CDs de músicas, filmes e séries de televisão, pirateados das mais imaginativas e diversas formas. Este negócio, que parte da ilegalidade da atividade que o sustenta, floresce em Havana graças à ilegalidade que lhe concede o fato de que se dedicar à sua venda é um ofício permitido e fiscalizado. Assim, bancadas rústicas, colocadas em portas e calçadas, oferecem ao comprador as últimas produções do cinema norte-americano e as mais recentes gravações dos astros da música, por preços que inclusive atraem os turistas estrangeiros de passagem pela cidade.
A busca por soluções individuais por meio da montagem destes pequenos negócios, sem que existam muitas regulamentações arquitetônicas e urbanísticas que os controlem, vão dando à capital cubana uma imagem de feira sem limites, de cidade onde o rural se mistura ao urbano, a novidade com a improvisação e a feiúra, e a sensação de pobreza se convertem no selo mais característico. Enfim, Havana muda porque tinha que mudar… E um dos preços que paga é o de sua já bastante deteriorada beleza. Envolverde/IPS


*Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas, e sua obra mais recente "El Hombre que Amaba a los Perros", tem como personagens centrais Leon Trostki e seu assassino, Ramón Mercader. Artigo retirado do sítio da Agência de Notícias IPS - Inter Press Service.